90sclubkid:

Busy Philipps and Linda Cardellini in Freaks and Geeks, 1999

tudo sobre ele

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Tudo sobre ele prende minha atenção. Cada traço de seu rosto em repouso, cada mudança quando torce-se em sorriso. O brilho leve de seus olhos, ou como os fecha à luz do sol. Como esconde as mãos nas mangas nos dias de frio, ou como cruza os braços bem junto ao corpo.

Tudo sobre ele prende o olhar. Excita os sentidos. Seu cheiro, sua pele e o encontro dos olhos. A forma com que ele tira o cabelo dos olhos. Ou a expressão tranquila quando senta em um canto qualquer com seus fones e esquece do mundo. 

E o mundo sente sua falta. E eu sinto sua falta. Ainda que ele não sinta a minha. 

Mas tudo sobre ele me diz que me percebe. Seu jeito de dizer meu nome, seu jeito de me abraçar. Seu sorriso. 

Tudo sobre ele faz algo comigo. Tira do sério, rouba o foco. Faz com que eu me perca no meio de uma frase. 

É ele, ainda que não seja eu.

Mas tudo sobre ele conversa com tudo sobre mim, em monólogo. 

Tudo sobre ele diz tudo sobre mim.

Longe

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Eu acordo todos os dias com o mesmo sentimento. E eu só quero sair. Sair dessa cidade, desse país. Já que não consigo sair de mim. 

Olho todos os dias pela mesma janela. A vista não me agrada mais. Preparo todos os dias o mesmo prato. Não tem mais gosto. 

Sorrio todos os dias para as mesmas pessoas. Não é mais sincero. 

Luto todos os dias as mesmas batalhas. Tornou-se desistência. 

Só quero tomar aquela estrada cercada de árvores que vai para os limites da cidade. Quero fazer uma curva que me leve ao mar. Quero almoçar no interior e jantar na praia. Cantar no caminho. 

Quero observar as luzes da cidade com os pés molhados de onda. 

E dirigir para qualquer lugar que não seja de volta. 

Quero tomar um avião, barco ou trem. Ou pegar uma mochila e uma carona. Só não quero ter que acordar amanhã com esse sentimento.

De querer algo. 

Esse viver automático.

(Francesco Procat)

O problema não sou eu. É você e essa sua mente fechada.
Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil.
— Memórias Póstumas de Brás Cubas

Telepatia

Hoje acordei e decidi te esquecer, porque sinto saudades de você. Hoje disse a mim mesmo que não pensasse em teu nome, mas em poesia. Há tempo deixei de viver meu dia a dia, para viver em você, por quê? Porque te amo, e você não vê. Amo e só sabes sorrir e dizer que procuras quem seja certo para você, não eu. O errado, o errado, porque o certo está longe pensando em outro alguém. O objetivo já alcançado deixa de ser meta, e me tens por completo, e sabes, e eu choro.

Por não ser o nome que aquece tua pele, eriça-te os fios. Por não ser dono da voz que te causa arrepios. Mas acima de tudo, por ser aquele que suporta tuas quedas em silêncio profundo, flagelando-se a cada segundo…

Quem sou eu senão esboço de mim mesmo, se a verdade em mim esvaíra-se no desamor e no desamparo, fugira pelos verdes campos da esperança. Espero te ver por sob o luar estrelado, mas teu céu não habita minhas noites taciturnas. 

E não me dizes, eu que sinto. Eu que sinto-te distante de mim, em uma caminhada ao horizonte, eu persigo o castanho dos teus olhos por sobre águas azuis. Que sequer me umedecem, e não refrescam. 

Não há alívio quando se ama em segredo.

dor

Como encarar o mundo como Mundo se ele está em perfeita desordem? Caos a caos a cada passo mínimo, estrada de fúria e de decepção.
E a dor é boa, porque é real e concreta. A dor é boa porque dói e é plena como talvez apenas a dor seja. Pois amor é dor em sorrisos e carinhos, enquanto a dor é dor e apenas dor.
Inexplicável, no entanto entendível. Uma perfeita metáfora. Como dizer o que é dor sem exemplificá-la? Como dizer o que é dor e por que, se é universal, se é tato e pura como a humanidade?
Há dor e eu a sinto, como há ar e eu o respiro.
Enquanto o branco ainda for branco, haverá dor e será sincera.

Quem?


Sala.
Cozinha.
Escadas.
Quarto.
Não há como não pular degrau, tropeço e retomo.
Não há tempo de fechar as portas e janela, respiro e amo.
E depois desabo, finalmente, em um grito de décadas, enfim liberto do peito. E por quê? Por que não antes se o tempo é curto e é curto demais?
Por que visto-me como humano se meus instintos são puramente animais? Por que fingir ser se faz tempo perdi a identidade. E por quem? Por quem?! Por quem deixei de ser alguém?
Por um quem ou quando foi que perdi a mim mesmo. Por um momento ou dois, vazios.
É meu rosto refletido nos espelhos, mas quem sou eu?

No fundo sabes que todo esse orgulho já foi sentimento.
Não quero alguém que seja doce, quero o sabor amargo, intenso, marcante. Quero que fique comigo muito depois de partir. Forte, definitivo. Quero alguém para passar as tardes, não tão somente as noites. Cujos usos da língua não se limitem ao beijo quente, mas às palavras que contorcem sua boca em riso, meu rosto em sorriso e as nossas juntas em amor. Que transborde!

É difícil te ver partir. Estava esperando que ficasse.

Venha, mas somente se for para ficar.
Venha e não se vá.
Ame-me e permita-se amar.
Antes que nosso tempo acabe.
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